Acesso as 11.55 - 29/03 http://www.oeco.com.br/reportagens/25802-amazonia-sem-fogo-chegou-na-bolivia-e-agora
2010 foi o ano que bateu recorde de focos de calor - 158.244 - na Amazônia boliviana, o que obrigou o governo da Bolívia a pedir ajuda ao Brasil para controlar os incêndios na região. É que o fogo correu solto na Bolívia. Houve um incremento de 400% nos focos de calor do ano 2009 a 2010, o que afetou não só a floresta, mas também a biodiversidade, os habitantes da selva e de grandes cidades como Santa Cruz. Para Juan Fernando Reyes, da ONG Herencia, “os focos são originados pela prática de corte-e-queima e por pecuaristas”.
Desde 2007, 300 mil hectares se perderam por ano, e mais de 6 milhões de hectares foram desmatados e perdidos nos últimos 30 anos, tudo pelo desmatamento, queimadas e a expansão da fronteira agrícola do país.
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Diante desta situação, o Ministério de Meio Ambiente e Água (MMAeA) da Bolívia, com apoio do Brasil e da Itália, lançou em janeiro deste ano o Programa Amazônia sem Fogo (PASF) em terras bolivianas. O programa, que existe no Brasil desde 1999, será executado no país vizinho em 39 municípios com o objetivo de “reduzir a incidência de incêndios florestais na região amazônica através da implementação de práticas alternativas que protejam o meio ambiente e melhorem as condições de vida das comunidades rurais”, afirma Ligia Castro, diretora de meio ambiente da Cooperação Andina de Fomento (CAF), uma das financiadoras do programa.
Iniciativa multilateral
Visualizar Municipios bolivianos en PASFem um mapa maior
O programa na Bolívia deve ter duração estimada de 36 meses e custar 3 milhões de dólares, financiamento que será dividido entre os governos italiano, brasileiro, boliviano e a Cooperação Andina de Fomento. Segundo Luigi de Chiara, embaixador de Itália na Bolívia, a iniciativa “integra ações de emergência e desenvolvimento através de atividades de capacitação e divulgação”.
Para o embaixador italiano, este deve ser “um modelo de preservação da floresta em todos os países amazônicos” - e uma chance de a Bolívia reduzir suas emissões de gases estufa, que equivalem a 0,3% do total mundial, mas que em sua maioria decorrem do desmatamento. “É a melhor resposta que podemos dar a uma agenda global de redução de emissões”, afirma Marcel Biato, embaixador do Brasil na Bolívia.
Este é o momento exato para a execução do Programa Amazônia sem Fogo na Amazônia boliviana, pois as condições estão dadas, garante Ligia Castro, já que as atividades exploratórias realizadas pelo Ministério de Meio Ambiente da Bolívia com apoio da Cooperação Andina de Fomento, no ano passado, ficou claro um “forte interesse local nas ações propostas”, além de “existir no país uma organização social estruturada que permite a fluidez do programa”, o que a faz acreditar que ele terá sucesso na Bolívia.
Programa Amazônia sem Fogo, Cooperação Italiana
A maior parte dos focos de calor na Amazônia boliviana é provocada pelo homem. (Foto: Juan Fernando Reyes-Herencia)
Para Juan Fernando Reyes, a construção no Brasil de uma base social contra o desmatamento foi fundamental para o estabelecimento de uma base legal que o limite, e acredita que dai partiu o sucesso do programa no Brasil. E acrescenta que o sucesso da iniciativa vai depender da “vontade política de encarar o problema de maneira integral e de envolver na ação atores e organizações da sociedade civil”.
Por sua vez, Alaín Muñoz, representante de Articulação Regional Amazônica (ARA), em seu artigo “O que fazer com os incêndios florestais?” assevera que o país tem tudo para a luta contra os incêndios florestais, “mas não cumpre”. Para ele, é necessária uma abordagem de vários lados, desde política, concentrar esforços nas florestas em risco, autogestão local do fogo, liderança e integração de atores agrícolas, pecuários e florestais. E é esse o foco do PASF.
“Contar com um programa que apoie o país no manejo e controle de incêndios é fundamental para evitar um maior dano ecológico; já que este problema é uma das maiores ameaças para a fauna e flora da região amazônica”, afirmou o representante de CAF na Bolívia, Emilio Uquillas.
“Com o Programa Amazônia sem Fogo na Bolívia e a experiência do Brasil, poderemos fazer um programa regional, reconhecendo que as florestas representam um patrimônio de rica biodiversidade”, afirma o embaixador italiano. Suas previsões estão no caminho certo. Depois da iniciativa da Bolívia, Peru e Equador já solicitaram apoio do programa.
É preciso trabalhar junto
Na Bolívia existem pelo menos três frentes simultâneas de combate ao fogo, na qual diferentes instituições realizam trabalhos descoordenados ou de forma regional, desperdiçando os poucos recursos e sem conseguir o resultado necessário. “Se não existe coordenação entre as instituições e governos locais, regionais e nacional, os incêndios não diminuirão e o pessoal continuará queimando sem controle e cuidado. Se o PASF não se alinhar com todas as instituições envolvidas independentemente de diferenças políticas, teremos o mesmo cenário de 2010, com fogo e mais fogo, sem saber o que fazer”, afirma um funcionário da Autoridade de Bosques e Terras (ABT) que preferiu não se identificar.
Oscar Justiniano, responsável pelo Programa de Prevenção e Controle de Incêndios Florestais do Governo do Departamento de Santa Cruz, faz coro a esta afirmação e conta que até agora não foi contatado pelo projeto, apesar da experiência de Santa Cruz em lidar com o tema por meio de diferentes iniciativas desde 2004. “Unificar critérios e propor uma só alternativa contra o fogo é a melhor forma de trabalhar. Separados não conseguiremos os resultados esperados”, afirma.
*Atualizado às 16h59 de 16 de março de 2012
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