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Cão-guia. Essa relação é animal!
O cão-guia é uma companhia que necessita de afeto e muitos cuidados. Em ontrapartida, são os olhos fiéis daquele que não vê
Por Daiane Brito - Revista Sentidos
O dito popular diz: “o cão é o melhor amigo do homem”. No caso do cão-guia, além de fazer companhia, o bichinho compartilha do seu faro e da sua agilidade canina para ajudar a melhorar a vida do dono. Pode ser observado que nem todas as pessoas se adaptam ao recurso canino, mas todas aquelas que trocam a tradicional bengala pelo animal garantem que além de um amigo fiel, ganham carinho, amor e dedicação incondicionalmente. “Meu labrador é um pedaço de mim. Talvez o melhor”, revela o consultor em agronegócios Luiz Alberto Melchert, de São Paulo. A advogada paulista Thays Martinez, presidente da ONG IRIS e dona do Diesel, concorda: “O cão-guia é insuperável”.
No Brasil, existem mais de 1,4 milhão de cegos, de acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Mas há menos de cem cães-guia em atuação, segundo a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Para a advogada, este número ainda é baixo porque há poucos projetos, o treinamento é complexo e uma das maiores dificuldades é encontrar instrutores capacitados.
Quero um cãozinho! - O primeiro passo é fazer o cadastro em uma instituição especializada. O tempo de espera varia, pois é preciso encontrar um cão compatível com as necessidades de cada pessoa. No caso de Álvaro da Silva, de Itajaí (SC), levou cinco meses para ganhar da Escola de Cães-Guia Helen Keller (SC) o golden retrivier Rama, e para a consultora de inclusão social Jucilene Braga, a fila andou, e em nove meses recebeu Charlie, da IRIS (SP). Para José Carvalho o processo não foi tão eficiente quanto gostaria, e o servidor público aguardou por mais de quatro anos na ONG Integra (DF).
Thays explica que o candidato deve ter condição boa de mobilidade, noções de ambiente, responsabilidade e principalmente gostar de animais. “É preciso querer muito. O cão-guia não é apenas um instrumento. Ele faz isso pelo afeto ao seu dono. O amor é a sua recompensa”. A advogada conta que seu primeiro cão-guia, o Boris, a ajudou a romper barreiras, e que a amizade e a intimidade entre ambos foram marcantes em sua vida. Além disso, ele tinha uma capacidade incrível de memorizar lugares e endereços. “Um lia o pensamento do outro”.
O psicólogo George Harrison, diretor do Instituto Cão-Guia Brasil (RJ), acredita que é preciso incentivo não apenas do governo, mas de empresas e de toda a sociedade para aumentar o número de beneficiados. “Meu sentimento na hora da entrega do cão, por ver a felicidade da pessoa e saber o quanto a vida dela vai mudar, só se compara ao nascimento dos meus filhos”, revela. No Instituto Cão-Guia Brasil, assim como no IRIS, há mais de 3 mil pessoas aguardando na fila. Por serem organizações sem fins lucrativos, precisam de parcerias, principalmente com canis.
Tenho e recomendo - José Carvalho é morador de Cataguases (MG), está hoje com 50 anos, e aos 6 foi diagnosticado com retinose pigmentar. A partir dos 36 anos, passou a precisar de auxílio para se locomover. Mas foi há apenas cinco anos que tudo mudou em sua vida. “Deixei de depender das pessoas para, por exemplo, ir ao barbeiro. A Frig (nome de sua cadela) guia com maestria e eficiência, além de ser muito simpática e adorar mimos de todos que nos abordam. Aprendo a cada dia com minha companheira. Ela faz parte de mim”.
Álvaro da Silva, um professor de 49 anos, teve complicações em uma cirurgia de miopia aos 18. Está com o cãozinho Rama desde 2010. “É imensurável o ganho com a presença do meu amigo. Independência, qualidade de vida, segurança, afetividade e tantas outras vantagens que posso resumir em cidadania, ou melhor, o resgate dela”.
Jucilene, que mora em São Paulo e tem 30 anos, perdeu a visão aos 5 após um tiro acidental de espingarda de chumbinho. E em 2007, ganhou o Charlie. “Não só minha velocidade de caminhar mudou, mas também a forma como as pessoas começaram a me encarar. Tenho muita gratidão, porque ele é meu amigo, meu fiel companheiro quem me tira de perigos...Enfim, é simplesmente maravilhoso”.
Já o paulistano Luiz Alberto, de 55 anos, perdeu a visão aos 14 por glaucoma congênito. Está no seu quarto cão e desde 2005 conta com a companhia do Sambucan Y. “Seria mais fácil me perguntar se sou capaz de imaginar a vida sem um cão- guia, pois os tenho faz tanto tempo que não sei como é viver sem eles”.
O Cão-Guia - As raças mais utilizadas para o treinamento de um cão-guia são golden retriever e labrador, pelo temperamento dócil, fácil adaptação e porte físico. A formação tem início com a seleção genética e comportamental. A partir dos dois meses de idade, o cão é adotado por uma família voluntária para o processo de socialização. O interessado em ser voluntário precisa se cadastrar e passar pela entrevista da instituição. Depois de selecionado, receberá instruções de como iniciar a educação do animal. No início, os comandos são simples, como ensiná-lo a sentar, parar, obedecer ordens pelo nome e a fazer as necessidades fisiológicas nos lugares certos. O mais importante nesta fase é levar o filhote para todos os ambientes, até mesmo ao trabalho, pois o cão precisa conhecer atividades cotidianas e se adaptar a lugares movimentados, como shopping, supermercado, restaurante, trem, ônibus e até o trânsito. “São 24 horas por dia e sete dias por semana com a Europe. É preciso muito amor e dedicação, haja vista que ela será os olhos de alguém”, explica o economista Luciano Bellocchi, voluntário do Projeto Cão-Guia, do Sesi-SP.
As despesas com ração e acompanhamento veterinário são custeadas pelas instituições ou arcadas pela família, dependendo do projeto. O voluntário precisa estar ciente de que o filhote não é um animal de estimação, e sim que está sendo preparado para ser um trabalhador. Quando o animal completa 1 ano, está pronto para voltar à instituição e iniciar o treinamento. “Vai ser triste quando a Europe for embora, mas já me preparei, sei que é por um bem maior”, diz Bellocchi.
“Habilitação canina” - No treinamento específico, o cão aprende a desviar de obstáculos, perceber o movimento do trânsito, identificar objetos, encontrar a entrada e saída de diferentes locais, entre diversas outras atividades. De seis a oito meses já estará pronto para ser entregue ao usuário. O novo dono também recebe instruções dos comandos necessários para o cão conseguir guiá-lo. Além de aprender como cuidar do seu novo amigo. Esta fase é chamada de ‘treinamento de time’, que dura em média um mês. “Inicialmente foi difícil deixar a bengala para iniciar com o cão, mas aos poucos fui tendo segurança e confiança. Hoje somos um”, conta o catarinense Álvaro.
A dupla recebe auxílio do projeto com acompanhamento periódico para avaliar a evolução do trabalho e verificar se o animal está recebendo o tratamento correto. Em geral, um cão-guia está apto para trabalhar até os 8 anos e depois precisa ser aposentado. Ele também deve e pode ter uma vida normal, como qualquer cão que brinca com crianças, corre em parques e se diverte com o seu dono. Mas enquanto estiver guiando, deve ter seu trabalho respeitado. Um desvio de atenção pode ocasionar uma queda ou até um acidente mais grave. Interagir com o animal não está proibido, desde que seja em seu momento de descanso. “Tenho feito vários amigos por meio do meu príncipe Charlie”, conta Jucilene. O mineiro José Carvalho concorda: “A Frig é responsável pela elevação da minha autoestima. Ela me proporciona mais contato social”.
O usuário de cão-guia pode ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo assegurado pela Lei nº 11.126, de 2005. “Já tive problemas para entrar em táxis, restaurantes e supermercados. Mas informo meus direitos e se necessário mostro a documentação e o pedido de desculpa vem logo em seguida”, esclarece Jucilene.
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